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quinta-feira, março 24, 2011

Diário de Viagem - ISRAEL (3)

Ir a Israel é aceitar o risco. Aceitar que o terrorismo existe mais ali do que em outros locais do mundo. Aceitamos isto como premissa, mas não sentimos o medo. Infelizmente, esta "crueza" não é nada a que os israelitas não estejam habituados. O terrorismo não é nada que não esperem ou que não faça parte do seu quotidiano. Para um israelita a vida é mesmo isso, a convivência diária com a ameaça e a tentativa de fazer disso um modo de vida "normal" (a este propósito aconselho - mesmo - a leitura da crónica de hoje da Esther Mucznik, no Público).

Mas, apesar da "promessa" de normalidade - no sentido de tranquilidade e segurança - que se vive em Israel, ontem, ao início da tarde, uma bomba voltou a explodir no centro de Jerusalém, 7 anos depois da última, na principal estação de autocarros da cidade. É apenas mais um autocarro que explode em Israel. Não é nada de novo. Para os Israelitas e para o mundo, que assiste a isto há tempo de mais. Mas foi novo para mim. E foi, simplesmente, porque que eu estive naquela rua. Naquela mesmíssima estação de autocarros. Foi ali que apanhei o "maxi-cab" para Telavive. Foi ali que parei, num café de esquina, para beber um café e comprar uma garrafa de água. Estive ali, e, ali, fiz o que de mais normal há na vida: parar dois minutos para beber um café.

Nada explodiu, então. Ainda bem, penso eu agora. Mas estive ali e não tive medo. Aos que me têm perguntado (e têm sido alguns) se me senti insegura em Israel, a resposta é não. Não senti medo, tal como não é medo o que sinto ao andar de metro em Londres, ao apanhar um comboio em Madrid ou ao entrar num avião para qualquer parte do mundo. Tenho consciência do risco que é viver num mundo em que o terrorismo existe. Sei que posso, um dia, ser vítima dele. Tanto em Israel, como em Londres, em Madrid, em Nova Iorque ou em Lisboa. Por isso, estive na estação, onde ontem explodiu um autocarro e onde morreu uma turista, e não tive medo. Mesmo sabendo, hoje mais do que ontem, que podia ter sido o meu autocarro. Podia ter sido eu.

É esta estranha sensação - não é medo, nem angústia mas uma profunda consciência da relatividade das coisas - que se aprende com Israel. Sente-se.

domingo, março 06, 2011

Diário de Viagem - ISRAEL (2)


É impossível visitar o Yad Vashem, o Museu/Memorial do Holocausto, no Monte da Recordação (Har HaZikaron) em Jerusalém, e ficar indiferente. E não será por Yad Vasehm nos contar uma história sobre o Holocausto diferente e mais terrível do que aquela que (infelizmente) todos conhecemos.

É, talvez, porque ali o Holocausto é a VERDADE. A única verdade daqueles milhões de números a quem Yad Vashem quis restituir a humanidade, devolvendo uma cara, um nome e uma história. Não estão lá os rostos dos 6 milhões de Judeus que foram mortos nos guetos, nas valas e nas câmaras de gás. Mas estão os de muitos e, em cada um deles, reconhecemos alguém como nós: com uma família, com um nome, com esperança. Homens, mulheres, novos, velhos, crianças, deficientes, artistas, cientistas, escritores ou advogados, todos estão em Yad Vashem, porque todos, independentemente da idade, da profissão ou da nacionalidade, foram vítimas da Shoah.

Em Yad Vashem, contudo, não há o horror. Não há o cheiro. Não há o frio. Não há o medo que dizem que se sente, ainda hoje, em Auschwitz-Birkenau. Há, sim, uma história, terrível, que é contada através da história das pessoas que a viveram. O professor que morreu porque se recusou a abandonar as crianças que tinha a seu cargo. A jovem hungara que sobreviveu e consigo "salvou" algumas das mais terríveis fotografias dos campos. O realizador de cinema judeu que colaborou com os Nazis achando que assim ganhava a sobrevivência, mas que não conseguiu. E em cada nova caixa que abrimos, uma história, igual às demais na sua simples humanidade. É isso que choca em Yad Shavem.

Por fim, porém, em Yad Vashem também há esperança. A esperança de que os Judeus agora têm uma casa e um Estado que os pode proteger. A esperança de que será impossível algo tão terrível voltar a acontecer. E é por causa dessa esperança que a visita termina numa varanda, com uma esmagadora vista sobre Jerusalém, a terra prometida.

Em Yad Vashem todos nós fazemos uma viagem. Não a viagem das muitas salas pelas quais passamos, mas uma viagem interior, sobre os limites da humanidade e é isso que não nos deixa indiferentes. Eu não saí de Yad Vashem a saber mais sobre o Holocausto. Mas saí de Yad Vashem, sem dúvida, a saber mais sobre humanidade.


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Nota: nos minutos imediatamente após a visita, não sabia muito bem o que podia dizer. Tudo parecia banal e pequeno, perante a dimensão daquilo com que ali somos confrontados. Não havia lugar ao sentido de humor, tão útil quando nada mais há a dizer. Uma gargalhada soaria mal, ali. Aos poucos vamos recuperando, mas a sensação de estranheza, essa não passa. Ainda agora, ao escrever sobre Yad Vashem não encontro as palavras certas para descrever o que senti. O nó volta ao estômago e o bloqueio ameaça a habitual fluência da escrita. Por algum motivo, o Holocausto foi o Holocausto, e não é preciso ver as câmaras de gás para sentir a revolta calada pelo que Homens foram capazes de fazer a outros Homens, tendo apenas o silêncio por testemunha. Yad Vashem é isso mesmo.

sexta-feira, fevereiro 11, 2011

Diário de Viagem - ISRAEL (1)


Bandeira de Israel em Massada, a fortaleza localizada num monte no deserto da Judeia, símbolo da resistência e da revolta dos Judeus contra o exército Romano. É aqui que, hoje em dia, os recrutas das Forças Armadas Israelitas fazem o seu juramento de fidelidade: "Massada não cairá nunca mais".




É preciso ir a Israel para perceber Israel. E isto porque é preciso perceber o que é ser um Estado, pouco maior do que o Alentejo, na península Arábica. O que é ser a única democracia de tipo ocidental numa região onde ainda prevalecem os regimes autoritários sejam eles de cariz secular (Egipto) ou teocrático (Irão). Perceber o que é ter uma terra que é pobre (em grande parte deserto) e ainda assim conseguir ser autosuficiente. O que é defender e praticar a liberdade e a tolerância num terreno fértil ao extremismo e ao fundamentalismo. Perceber o que é tentar viver um modelo democrático ocidental num meio adverso e ter que combater, dia a dia, aqueles que querem a destruição de Israel.

É preciso ir a Israel para perceber o que é lutar pela sobrevivência de um Estado e de um povo. É preciso ver e ouvir. É preciso sentir. Talvez Massada seja a melhor metáfora do que tem sido a História de Israel - uma luta diária pela sobrevivência. Luta essa que não impede, ainda assim, que um Europeu chegue a Israel e se sinta "em casa", porque ali, num palco que também é de guerra, uma guerra civilizacional, encontramos os nossos valores. Como disse Gunnar Hökmark, presidente dos European Friends of Israel, "in Israel we are in the common land of democracy". E é por isso que Massada não cairá, porque a liberdade, a democria e a tolerância não podem perder.