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segunda-feira, dezembro 09, 2013

For she's a jolly good fellow!

Antes que os últimos dias da gravidez e os primeiros de maternidade me levem a mudar de ideias, aqui fica a minha homenagem à miúda mais espectacular que já existiu na vida intra-uterina (pelo menos na minha!).

Não faço ideia do que ela vai ser cá fora e se o bom comportamento fetal se manterá na primeira infância e pela vida fora, mas por agora é justo dizer que foi uma excelente e pouco exigente "passageira na viagem" dos últimos meses. 

Nem um enjoo. Nem um mal estar. Nem uma estria. Nem um inchaço. Nem um dia em que não pudesse fazer a minha vida absolutamente normal. 

Comigo, andou de avião mais vezes do que seria recomendado. E ainda fez kms de carro e comboio. Passeou por essa Europa fora e pela acidentada costa Alentejana. Participou em reuniões intermináveis e preparou documentos, memorandos e relatórios. E tudo sem se vingar em mim, proporcionando-me aquelas adoráveis maleitas que milenarmente associamos à gravidez. Aguentou dias de calor de estalar (sim, na Bélgica!), várias mudanças e muitas caixas e sacos e até quedas pouco prováveis! Portou-se, em todos os momentos, de forma exemplar!

É por ter sido uma excelente companheira de viagem, que a miúda merece este elogio. A ver se para o ano merecerá post semelhante...

quarta-feira, janeiro 02, 2013

O Salto


2012 foi o ano do salto. Podia chamar-lhe mergulho, mas prefiro vê-lo como um salto. Um salto para dentro de mim, sem medo de me perder no vazio.

E se a vontade de dar esse salto foi uma decisão consciente - numa tentativa de me conhecer e de ser mais feliz - todo o processo subsequente, embora consciente, não depende da minha vontade e não posso sequer tentar controlá-lo. É uma aventura. Terrível e magnífica. 

Terrível porque me confrontei com algumas coisas que preferiria não ter encontrado em mim. Mas magnífica por tudo o que ganhei em verdade e em autenticidade. Finalmente a imagem projectada no espelho é mais aquilo que Sou e menos a construção racional (a máscara) a que hoje chamo o "sempre fui assim".

Hoje sinto que este salto em busca do Eu é, possivelmente, a maior viagem que algum dia poderei fazer. E uma viagem que nunca acaba, porque é sempre possível ir mais longe e mais fundo. Aliás, esse é o verdadeiro desafio, não parar a incessante busca do Eu e aprofundar o Ser. Encontrar o Eu verdadeiro, fundo, bem fundo, e não o eu que fui construindo, camada após camada, até não ser mais do que um conjunto de certezas inabaláveis e de definições absolutas do "sempre fui assim".

Tornar-me eu mesma, sei hoje, é uma tarefa árdua. Implica deitar fora muitas das coisas que sempre disse e sempre fiz porque "eu era assim". É andar à deriva e, muitas vezes, não saber, de todo, qual é o caminho que quero seguir. É contradizer-me, é aceitar que há mais mundo que quero descobrir, é ter a coragem de viver os meus sonhos, é assumir que posso e quero ser mais e ser melhor. É, também, redescobrir a autenticidade e perder o medo de Ser. É difícil, mas é possível.

Eu quis dar esse salto e mesmo sabendo que ainda tenho um longuíssimo caminho a percorrer, ganhei a serenidade de o ir fazendo, dia a dia, sem querer construir uma nova "máscara" e tornar-me qualquer outra coisa que não Eu. No fundo é este o meu propósito no ano que começa. É simples, mas não é pouco. É uma tarefa para a vida.

quarta-feira, dezembro 12, 2012

Os invisíveis

As grandes cidades sempre me fascinaram. O seu caos repleto de gente era uma das características que mais me seduzia. O barulho, as luzes, as pessoas apressadas, a correr de um lado para outro, criavam a confortável percepção de companhia. Podia estar sozinha, de facto, mas sentia-me perfeitamente acompanhada pela cidade atarefada.
Com a idade e com a experiência (aos 30 anos podemos começar a falar assim) percebi que tal não passa de ilusão. A verdade é que todas essas almas com que me cruzo, nas ruas de Lisboa, Bruxelas ou Londres, são estranhos para os quais eu, na verdade, não existo e o meu mundo é algo que não os toca. Posso estar feliz que não terei ninguém a querer saber porque sorrio comigo mesma. Posso estar triste que ninguém me perguntará por quem são as minhas lágrimas. 
E é essa a solidão de quem está rodeado de gente. Pode irritar-me a vida de "bairro" em que a vizinha sabe bem quem eu sou e que se aproxima, curiosa, se pressente alguma novidade. Posso achar penoso ter que responder sempre às mesmas perguntas das velhotas lá do prédio. Mas, por incrível que pareça, isso conta. Isso conforta. Afinal não somos anónimos.  
É a quebra das relações de proximidade nas cidades que conduz, de facto, a uma solidão maior do que a solidão de quem está, verdadeiramente, só. E estar rodeados de gente não passa mesmo de uma tremenda ilusão, já que para toda essa "gente" nós somos absolutamente indiferentes. Invisíveis.

segunda-feira, dezembro 03, 2012

Let it snow

A minha relação com a neve é qualquer coisa de inexplicável. É uma verdadeira dualidade de sentimentos que me atinge de forma particularmente aguda. Passo a explicar.

Naquele exacto momento em que começa a nevar, e eu sinto os flocos a baterem-me nas pestanas, não há como evitar um sentimento de genuína alegria. Rio-me, ainda que sozinha. Pareço uma criança, feliz com o seu globo de neve, privado e real. Gosto de a sentir, de lhe tocar, de a ver a derreter, devagar, em contacto com a pele quente. Se estou em casa, e vejo a neve a pintalgar a árvore que me esconde a janela, é quase paz aquilo que sinto. A neve a cair tem um estranho efeito tranquilizador. Talvez seja a sua serena cadência, o seu branco exemplar, o facto de, ao contrário da chuva, ser silenciosa. Acordar e ver uma cidade pintada de branco é uma experiência de paz inigualável.

Mas há o reverso da medalha...

A calma e a serenidade da neve branca nada tem que ver com o caos por ela causado. Os aviões que atrasam. Os autocarros que não andam. Os táxis que não existem. A cidade, caótica na sua incapacidade de viver a neve, pára num uníssono de buzinas e de gente irritada, que escorrega e cai. E, ao fim de algumas horas, o branco dá lugar a uma amálgama preta, mistura de gelo com poluição e óleo, que suja as ruas e estraga todo o efeito bucólico do fenómeno. E é, precisamente, aí que eu me irrito com os atrasos, com as dificuldades e com as pessoas mal dispostas.

E é nesta absoluta dualidade de calma e caos, de pureza e de sujidade, que se encontra a minha incapacidade de conciliar as diferentes sensações causadas pela neve. Amo e odeio. Gosto do fenómeno em si, mas detesto as suas consequências na vida prática.

Porém, não consigo evitar o sorriso ao primeiro nevão do ano. Como não consigo não gostar dos domingos pintados de neve e da minha árvore branca a espreitar-me, pacificamente, pela janela.

quinta-feira, novembro 01, 2012

Liberdade

"Ai que prazer
não cumprir um dever.
Ter um livro para ler
e não o fazer!
Ler é maçada,
estudar é nada.
O sol doira sem literatura.

O rio corre bem ou mal,
sem edição original.
E a brisa, essa, de tão naturalmente matinal
como tem tempo, não tem pressa...

Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto melhor é quando há bruma.
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol que peca
Só quando, em vez de criar, seca.
E mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças,
Nem consta que tivesse biblioteca...
"

Fernando Pessoa



Falando em poemas e em democracia, como deixar passar ao lado este magnífico hino libertário?

Na adolescência, quando o li pela primeira vez, adorei a noção de "não cumprir um dever". Achei-a profundamente tentadora - libertadora. Depois, com a idade e com a responsabilidade com que acabamos por ter que enfrentar a vida de adultos, vem a anulação do querer face ao dever. Queremos comer um gelado, mas não devemos, porque engorda. Queremos ir ao cinema, mas não devemos porque amanhã temos que acordar cedo. Queremos ficar à conversa a noite inteira, mas não devemos porque temos um prazo para cumprir. Queremos comprar "aquelas" botas, mas não devemos porque são caras. Tanta coisa que queremos, mas que não devemos. E isso faz parte de ser "adulto". Só as crianças confundem querer com dever (e com poder) e por isso fazem birras - porque acham que basta querer e que só por querer se pode e se deve ter. No fundo, ser criança é ser um libertário. E só as crianças podem ser completamente libertárias, porque a responsabilidade é-lhes exógena - está nos os pais, nos professores, nos adultos em geral.

Mas ser adulto, ensinam-nos, não é isso. Ser adulto é fazer escolhas e muitas vezes sacrificar o querer no altar do dever. Faz parte do "pacote" e aprendemos que ser livre é algo muito diferente de fazer tudo aquilo que queremos porque com a liberdade (querer) vem sempre a responsabilidade (dever) e é no eterno balanço entre ambas que temos que viver.

E é exactamente por vivermos no choque permanente entre o nosso querer e o nosso dever, que é bom (e libertador) não o cumprir, de vez em quando. São pequenas indulgências que nos concedemos. Infantilidades, talvez, pelas quais depois seremos inteiramente responsáveis. E, também, só por isso é que vale a pena.

sábado, outubro 27, 2012

mergulho

Leva-me contigo a ver o mar. Uma e outra vez. De mãos entrelaçadas, sem pressa... porque o mar, tal como o tempo, espera.




quinta-feira, outubro 18, 2012

7 anos

Não me lembro do dia em que fiz sete anos. Mas, à distância de 24 anos, imagino que tenha sido um dia feliz. Terei recebido os presentes que esperava e terei aproveitado um dia de sol (como é normal acontecer a 15 de Setembro, em Lisboa) ao lado de todos aqueles que eram importantes no meu pequeno mundo. E isso bastava para, do alto das certezas dos meus 7 anos, me sentir a menina mais feliz do mundo. Faz parte e é bom.

Aos 7 anos, numa vida feliz, tudo ainda são sonhos, esperanças e promessas. Aos 7 anos, numa vida feliz, ainda não descobrimos a angústia, a desilusão e o vazio. Ainda bem! Há muito tempo até começarem a nascer as primeiras borbulhas e as primeiras dúvidas (curiosamente, geralmente, vêm de mãos dadas). Muito tempo até nos exigirem escolhas tão determinantes como: o que é que queres fazer na vida (!). Mas mesmo o muito tempo (7 mais 7 são 14 e, portanto, o muito tempo é, afinal, o dobro daquele que então tínhamos vivido) é sempre pouco tempo.
A Catarina faz hoje 7 anos. Está a aprender a escrever e está a aprender a contar. Para ela a escola ainda é uma ilusão, cheia de magia: o sítio onde vai aprender todas as coisas e onde vai encontrar as respostas a todas as suas mil perguntas. Para ela a felicidade, felicidade plena, é ter-nos – a família mais próxima – com ela no dia dos anos. (Ao mesmo tempo, tão pouco para se pedir e tanto para se dar). Para ela basta a certeza de que nós a amamos para ser feliz. E dar-lhe essa certeza é (ainda) tão simples! E vê-la aos 7 anos é recordar que todos nós fizemos 7 anos um dia. Todos nós acreditámos que a escola era a ilusão. Todos nós achámos que a felicidade era uma coisa fácil de vivenciar. Todos nós sentimos, nas mais pequenas coisas, que éramos amados e isso bastava.
A Catarina faz hoje 7 anos e o que eu lhe posso dizer, tendo 4 vezes 7 mais alguma coisa, é para aproveitar bem a infância. Ela passa rápido – demasiado rápido – e depois nunca mais a vida será vivida de uma forma tão simples e, ao mesmo tempo, tão sábia. A Catarina que tenha agora todas as certezas, porque, de facto, elas são a base de uma infância feliz, mas que não as leve para a idade adulta – devem ficar arrumadas, juntamente com os brinquedos cansados de tantos anos de brincadeiras, como uma bela memória dos tempos que foram. A Catarina que tenha agora todos os sonhos e todas as esperanças e que não os deixe, nunca, ficarem curtos de mais para o seu tamanho. Esses sim devem ser levados para a adolescência e para a vida adulta, para que se mantenha sempre a mesma curiosidade de continuar a perguntar, de continuar a não saber tudo e de continuar a sentir o encantamento pela vida e pelo mundo. Porque nada no nosso mundo é plano (há a esfera para além do círculo) e em qualquer idade há espaço e há tempo para a descoberta, para o fascínio, para parar e olhar para o mundo com os olhos da criança curiosa que um dia fomos e deixarmo-nos apaixonar por ele. A Catarina que se sinta amada e que faça desse imenso património um seguro para o que virá no futuro: os amores que, infelizmente, não vão correr bem, os desgostos e as desilusões. Porque nunca mais será tão simples sentir e dar amor como é aos 7 anos.
Quantos sonhos cabem em 7 anos de vida? Todos! Parabéns Catarina.

domingo, outubro 14, 2012

Always the hours



Vivemos numa sociedade consumista. E não falo do consumo de coisas. Falo do consumo do tempo. A nossa sociedade consome, vorazmente, o tempo. Todos corremos. Todos nos apressamos. Todos ansiamos por estar lá mais à frente, num futuro que nunca nenhum Homem pisou, mas que nós queremos consumir, já, agora: o e-mail que nunca mais recebemos. O prazo que não passa. As férias que nunca mais temos. O Natal que não chega. O livro que não acabamos. O filme do qual não conhecemos o final. Tudo é cortado, antecipado, resumido para mais depressa chegarmos à conclusão, ao final. Ao futuro. Como se algum dia pudéssemos ser rápidos o suficiente para chegar ao futuro(!).

E com isto não percebemos – pelo menos eu não percebia – que a única coisa que estamos verdadeiramente a antecipar é o limite da nossa própria finitude. Porque nós, por mais que nos custe, estamos limitados no tempo. E é por isso mesmo que ele é precioso. Cada instante de vida. Cada momento. Cada nano-segundo das nossas vidas consumido é menos um pedaço de vida que nos resta. E ao cavalgarmos os minutos, os dias, as semanas, os anos, é a vida que estamos a cavalgar. Consumindo-a (queimando-a) sem viver verdadeiramente. 

Cada vez mais penso em como o tempo voou dos meus 20 anos para agora. Em criança, pelo contrário, tudo durava mais tempo. E porquê? Porque tudo era vivido intensamente. Tudo era descoberta. Tudo era fascínio. Tudo era feito, ainda que instintivamente, com uma reverência absoluta pela vida que estávamos a descobrir. Em crianças éramos plenos de sonhos e de esperanças, mas não tínhamos consciência do tempo (ou tínhamos e lidávamos com ela como os sábios). Por isso não o queríamos apressar. Vivíamos. Andávamos devagar. Líamos devagar. Corríamos devagar. Sonhávamos devagar. Porque estávamos a aprender. Porque não sabíamos fazer mais depressa, nem sentíamos essa necessidade. Lembro-me de em criança querer ser “grande”, mas lembro-me de não ter pressa para lá chegar (porque tinha muito tempo. Tinha (achava eu) todo o tempo). Preferia brincar com as minhas bonecas ou ler os meus livros de aventuras numa tarde que demorava, de facto, todas as suas horas a passar.

Mas depois, chega a adolescência, e com ela a certeza de que o nosso tempo é finito. E começa a correria. Queremos ser adultos. Queremos ter 18 anos. Queremos ir para a faculdade. Queremos namorar. Queremos ser independentes. E corremos. Corremos muito depressa, com toda a força das hormonas. Nada nos pára. Nada nos sossega. Nada acalma essa ânsia imensa de tudo fazer, de tudo experimentar, de tudo consumir.

E, depois, essa correria nunca mais pára. Entranha-se de tal modo em nós que acreditamos que correr é o único caminho possível. Entramos no ritmo e continuamos a correr durante os 20, com a força da curiosidade. Durante os 30, com a ânsia do que não fizemos ainda. E por aí fora até o confronto com a morte se tornar cada vez mais iminente. Aí paramos e começamos, de novo, a viver lentamente. Tentando fazer esticar os dias às suas 24 horas, para que cada mês tenha 30 dias e cada ano 365. 

Mas será preciso esse choque brutal e tardio com a nossa finitude para que deixemos de consumir horas, que se somam em dias, que se transformam em anos? Não. Basta parar. Acalmar e sentir que a vida não é uma corrida. A vida não tem que ser apressada, mas aproveitada. A vida não tem que ser consumida, mas vivida.

Talvez eu seja, afinal, uma felizarda por me terem feito perceber isto aos 31 anos. Podia ter passado uma vida inteira sem perceber o prazer de deixar cada minuto ter os seus 60 segundos. Sejam esses 60 segundos de ansiedade, de tédio, de prazer ou de irritação. Sejam passados no cinema, no trânsito, no trabalho ou com aqueles que amamos. São 60 segundos da nossa vida e por isso são preciosos. São 60 segundos que nunca mais vamos viver e que se perdermos, nunca mais poderemos recuperar. Por isso temos que os vivenciar tão plenamente quanto a nossa limitada capacidade de sentir nos permitir.

E hoje, sabendo isto, arrependo-me por cada livro que consumi, vorazmente, procurando chegar rapidamente ao fim. Com isso, perdi o prazer de todas as horas em que ele me poderia, afinal, ter acompanhado. Talvez por isso, de cada vez que terminava um livro sentia tristeza. Sentia saudades. Saudades de todos aqueles momentos dolentes que podia ter passado com ele por companhia e que apressei, para chegar mais depressa ao final que era, afinal, nada mais do que a sua perda.

O mesmo por cada filme que vi ansiosa por chegar ao fim. Perdi todos os momentos em que podia ter apreciado a banda sonora. A forma como ele foi filmado. A interpretação dos actores. Todos os estímulos sensoriais e intelectuais que escapavam a quem procurava apenas saber o final da história. Porque a vida, afinal, é tudo o que acontece antes do final da história!

E, infelizmente, o mesmo para a minha vida. Tudo foi consumido com a ânsia de estar lá à frente. Com a ânsia de chegar. Com a ânsia de ganhar um futuro que, afinal, nunca foi mais do que ilusão. A correria sem destino, porque o único destino era impossível de alcançar: o futuro.

A metáfora recorrente na minha vida, a “de entrar no mar pelo meio” não poderia ser mais descritiva dessa ânsia de consumo de momentos. De queimar etapas da vida. Hoje sei que há que entrar no mar pela rebentação e aproveitar isso. Fazer o percurso, sem pressa. Olhar à volta e sorrir ao tempo. Porque o tempo, afinal, não é o nosso inimigo, porque não estamos numa corrida. O tempo é o nosso aliado, porque estamos num passeio.

sábado, outubro 13, 2012

O véu pintado



Tenho por hábito estudar/trabalhar ao som de bandas sonoras. Calhou hoje a escolhida ser a fabulosa banda sonora do filme “The Painted Veil”, de Alexandre Desplat. O que me levou a recordar o filme e o livro, de Somerset Maugham. Este é, possivelmente, o escritor homem que melhor captou a riqueza de uma personalidade feminina. As suas mulheres nada têm de planas, previsíveis ou secundárias. Antes pelo contrário. E n' “O Véu Pintado” é uma mulher a anti-heroína na história. 

Kitty Fane começa por ser a menina fútil e evolui para ser uma mulher leviana. Mas, a mesma Kitty Fane que assim começou, através de um caminho de solidão e de sofrimento, consegue redimir-se e regenerar-se. Confrontada com as suas culpas, com a solidão e com o desterro numa zona remota da China, Kitty renasce primeiro para os outros (as freiras e os orfãos do convento) e neles encontra-se, depois, a si própria. E, por fim, descobre o afecto, o perdão e o amor pelo homem que outrora desprezara. Um amor que nasce do respeito e da admiracão, mas também do sofrimento. E um amor que é muito mais do que uma paixão fugaz, alimentada pela chama passageira do desejo e da auto-satisfação. Um amor capaz de vencer a solidão, a descrença e até o medo, porque se basta a si próprio, pelo poder regenerador e criador que traz consigo. 

Esta é a poderosíssima estória que Somerset Maugham nos conta, e Kitty Fane acaba por ser a derradeira prova de que não há caminhos impossíveis e que o sofrimento tem um imenso poder regenerador, saibamos nós aproveitá-lo. Kitty Fane é, afinal, uma lição de esperança nas mulheres. Uma lição de esperança no ser humano.

Como escrevi certa vez, esta é uma estória de amor do avesso. Talvez a mais bela estória de amor do avesso já contada... mas, lá está, também ninguém nos disse que as estórias de amor tinham todas que ser escritas do direito. Somerset não o fez. E fez bem.

Uma despedida



Hoje, quase um mês depois de ter feito 31 anos, lembrei-me que com isso os meus tempos de JP (Juventude Popular) acabaram oficialmente. Agora já não é apenas uma questão de escolha (a todo o tempo reversível), mas de impossibilidade de facto (a idade não perdoa). 

Passar por uma juventude partidária pode ser (deve e é) muito mais do que uma experiência da politiquice, do cacique e da falta de escrúpulos. Tudo isso se passa? Talvez. Mas há mais e há melhor. Há gente brilhante. Há gente trabalhadora. Há gente honesta. Há gente que, pura e simplesmente, acredita que a política pode e deve ser uma das mais nobres actividades: a de servir a causa pública. E o que haverá de mais nobre do que servir o nosso país – e os outros -, o melhor que sabemos e que podemos?

E isso, (chamem-me ingénua) também se pode aprender numa juventude partidária. Isso, (chamem-me ingénua) também aprendi na JP, com o exemplo de muitas pessoas que de forma desinteressada procuraram servir, o melhor que podiam e que sabiam, os seus concelhos, os seus distritos e o seu país.

E isto leva-me a pensar que, apesar de todas as disputas, todas as batalhas, todas as eleições (as ganhas e as perdidas), todas as discussões mais ou menos acaloradas, foram bons aqueles anos. Deixaram-me boas memórias e um punhado de desilusões mas, mais importante do que tudo isso, na JP fiz grandes amigos. Aqueles que me viram crescer; aqueles que cresceram comigo e aqueles que eu ainda hoje vejo crescer. Pessoas com quem aprendi muito e pessoas a quem (tenho essa ilusão) espero ter ensinado alguma coisa.

E aos que ainda por lá vão continuando as suas batalhas, apenas desejo boa sorte. Boa sorte e integridade, para lutarem sempre de forma honesta e de cabeça erguida. Porque faz parte acreditar. Porque faz parte lutar. Porque faz parte sonhar.

quinta-feira, outubro 11, 2012

segunda-feira, outubro 08, 2012

Horizonte

Ninguém nos disse que viver era fácil. Ninguém nos prometeu que amar era simples. Ninguém nos deu um manual de instruções para lidarmos com os nossos sentimentos. Ninguém nos garantiu que a felicidade estava ao virar da esquina e que chegava sem sofrimento.

Mas também ninguém nos disse que era impossível ser feliz. Ninguém nos disse que era impossível mudar. Ninguém nos disse que era impossível aprender a amar. Ninguém nos disse que era impossível voltarmo-nos a levantar.

A vida é feita de momentos e é vivida passo a passo. Se calhar é mesmo uma questão de tentativa e erro, isto de viver. Errar e acertar. Magoar e ser perdoado. Ser magoado e perdoar. Desiludir e reinventar a ilusão. Ninguém nasceu ensinado e ninguém sabe tudo.

Se calhar somos todos folhas em branco, nas quais a vida vai escrevendo. Nuns escreve mais, mais cedo. Noutros escreve menos, mais tarde. Noutros ainda, escreve menos, mas mais cedo, noutros escreve mais, mas mais tarde. Mas, a pouco e pouco, todos vamos tendo a oportunidade de preencher essas folhas em branco, página a página. E quanto mais andamos, quanto mais preenchemos essas folhas, mais sentimos a angústia das que estão por preencher. Do que há, ainda, por aprender. Do que há, ainda, por viver.

Mas se calhar é mesmo só por isso que vale a pena continuar. Se calhar é a angústia do que está por escrever e não a certeza do que deixámos lá atrás, que nos faz desejar viver no presente tudo aquilo que deixámos escapar no passado. Porque errar todos erramos, mas é pelo erros que cometemos, e que não queremos voltar a cometer, pelo que desaproveitámos e não queremos voltar a desaproveitar, pelo que não vivemos e que queremos agora viver intensamente, que o mistério da vida continuamente se renova e vale sempre a pena.

 E se a vida é um círculo permanente em que se alternam os opostos (bem-mal; alegria-sofrimento; justiça-injustiça) então há sempre a esperança da evolução pessoal de quem errando, aprende. De quem perdendo, avança. De quem sofrendo, melhora. De quem quebrando, renasce.

Ao cuidado dos nossos governantes passados, em especial ao senhor de Paris


"The fury to build is a diabolical thing, it devours money and the more one builds, the more one wants. It is as intoxicating as drink."

Catarina a Grande

Quando a certeza se cruza com a intolerância

"You have your way. I have my way. As for the right way, the correct way, and the only way, it does not exist".

Friedrich Nietzsche

Sobre o amor

"I dream of a love in which two people share a passion to search together for some higher truth".

When Nietzsche Wept


terça-feira, abril 13, 2010

Os padres e a pedofilia

Estou cansada de notícias sobre padres pedófilos. E sobre a Igreja e a pedofilia.

Há pedófilos na Igreja. Há. Está errado? Está. Está mal quem os encobre? Está. Têm os padres um dever especial de protecção daqueles que lhes são confiados (no caso crianças)? Têm. Por isso é mais grave um padre abusar de uma criança do que um outro cidadão qualquer. Como é mais grave o abuso por parte de um tutor, de um familiar ou de um professor. Porque sobre eles recaem especiais deveres de protecçção. E o abuso torna-se, assim, ainda mais cruel.

É só isto que está em causa. Não está em causa a fé. Não está em causa o celibato dos padres. Não está em causa a homossexualidade. Está em causa um CRIME, que, só por acaso, é particularmente grave. É criminoso quem o comete. É cúmplice quem o encobre. Padres ou não padres. Mais nada.

terça-feira, fevereiro 17, 2009

A individualista radical que adora sapatos



Digamos, então, que eu, que sou a favor do fim do casamento civil como tal, com os seus impedimentos, condições e consequências, sou uma individualista radical... parece-me lindamente! Acrescento apenas "que ADORA SAPATOS", e fica perfeito!




_______________________________
* Texto muitíssimo bem feito. Limpo e asséptico. Defende um ponto de vista com argumentos muito válidos. Exactamente ao contrário do que se passou ontem nos Prós e Contras (programa que vi durante 5 minutos por manifesta incapacidade continuar a ouvir o radicalismo e a estupidez de ambos os lados! Dizem-me que se "salvou" Miguel Vale de Almeida. Não sei, porque não vi. Mas acredito que um antropólogo seja, de facto, quem melhor poderia discutir o tema com razoabilidade, atendendo a que a jurista de serviço não soube cumprir a sua função.)

quarta-feira, dezembro 03, 2008

Era uma vez...

Este final de tarde / princípio de noite (consoante quem me lê for advogado, ou não) tirei (ou, deveria antes dizer, dei) algum tempo à minha vida apressada, para saborear a exposição de um artista português, João Figueiredo, de seu nome. Confesso que não conhecia o seu trabalho, mas como sou naturalmente curiosa e ouvi excelentes críticas, lá fui até ao Ministério da Finanças, lado oriental, a tempo da inauguração da exposição "Era uma vez em... 1808 1908". Verdade seja dita, não poderia ter gostado mais.

É História contada com sentido de humor (apenas visível nos pequenos pormenores dos seus quadros) e recriada com uma estética nova, que parte da descontrução para contar novas histórias. Arte moderna, arrojada (embora esta exposição, nas palavas do artista, seja "conservadora"), original e suficientemente pop embora muito longe de ser kitsch... Enfim, excelente.

sexta-feira, maio 16, 2008

Notas???? Isso não conta pra nada!!!!!!!

O psicólogo Eduardo Sá considera que a pressão sofrida pelas crianças é colocada pelos pais, que vêem neste momento um "primeiro certificado de qualidade" dos filhos, dando às provas uma importância que estas não possuem. Por isso, em vez de aumentar a ansiedade, é preciso desdramatizar e explicar que as notas não contam para nada

É por termos psicólogos que pensam e dizem alarvidades destas (com todo o respeito pelos anos de formação do senhor nessas escolas para perceber a cabeça dos outros) que Portugal caminha a passos largos para a convergência real com o Burkina Faso (com todo o respeito pelo Burkina Faso).

As notas não contam para nada. O saber é despiciendo. A escola é apenas um levíssimo programa de ocupação de tempos livre que não pode testar, avaliar ou obrigar os alunos a estudar. Ai credo, valham-nos todos os santos (ou nem isso, que falar de santos é pecado democrático) que isso pode traumatizar as criancinhas!!!!!

Infelizmente o que traumatiza não é bem isso... como me dizia o Henrique (que está neste momento a fazer uma das provas de aferição da 4.ª classe e é, no alto dos seus 9 anos quase 10, um profundo opositor dos novos métodos de ensino): «Não percebo porque agora já não tenho Excelentes. Agora na escola só há "Satisfaz bem", "Satisfaz" ou "Satisfaz pouco", mas se eu tenho tudo certo devia ter Excelente! Isto não é muito justo, pois não Bi?» Pois claro que não é!!!!! Isto é que traumatiza... Estudar e esforçar-se, ter um 100% a Matemática e dizerem que o teste dele "satisfaz bem". Satisfaz bem o tanas! É excelente, ora agora! Com que ideia vai esta criança enfrentar a vida e o mercado de trabalho??? Quer se esforce quer não, quer seja o melhor quer seja mediano, será apenas um “satisfaz bem”, por isso não vale a pena investir o seu tempo e a sua inteligência!

Além de que o mundo real não se compadece com estas teorias psicológicas/pedagógicas do mérito democrático em que todos os meninos são igualmente inteligentes e trabalhadores! Na vida, no mercado de trabalho, são os melhores que ocupam os melhores lugares, não há cá teorias de satisfaz! Ou se é excelente ou “adeus”, género “o elo mais fraco” da vida real! E se não for a escola a preparar-nos para esta realidade não sei bem quem será e que tipo de adultos medianos estaremos a criar!

Que façam exames, que dêem notas, que haja excelentes e “negas”, que se chumbe e que existam quadros de honra!!!! Que a escola seja um espelho da vida e prepare adultos à séria e não “mariquinhas” que não aguentam uma má avaliação! Talvez nesse dia Portugal deixe de convergir com o Burkina Faso...

quarta-feira, fevereiro 06, 2008

O fim de uma coisa é sempre o princípio de outra!

Ao longo da minha vida já escrevi uns quantos emails de despedida e já fiz alguns posts de balanço de experiências, mas nunca escrevi sobre o começo de alguma coisa... e é bem mais difícil (embora o começo de alguma coisa implique, quase sempre, necessariamente, o fim de uma outra). É o caso.

Chegam hoje ao fim 18 meses de vida diferente... uma vida sem compromissos estáveis e sem fronteiras definidas. Uma vida que foi algumas vezes de "dondoca", outras de estudante e outras, ainda, de orgulhosa representante de Portugal nessa imensa Missão que foi a Presidência do Conselho Europeu! 18 meses de que não me arrependo de um só dia, porque serviram para tanta coisa. Para pensar, para amadurecer, para me divertir, para dormir, para trabalhar, para estudar, para descobrir, para viajar, para me encontrar, para VIVER. Não que antes não tivesse vivido, mas estes meses foram diferentes, muito diferentes. Algures terei escrito, sobre os 6 meses de MP, que foram «the experience of a lifetime», e é isso mesmo!

Passaram rápido, muito rápido e eis que é tempo de voltar a assentar, depois deste intervalo lúdico que foi, a todos os títulos inesquecível, sobretudo porque tendo sido, eventualmente, o período mais 'calmo' de sempre no que toca a trabalho e obrigações, foi aquele que me permitiu estar mais comigo e conhecer-me. Parece conversa tola, mas é a verdade. Se não fosse esta pausa hoje não estaria onde estou, nem teria amadurecido o suficiente para ser capaz de fazer e assumir as escolhas que faço agora!

E aprendi tanto! Aprendi nomeadamente que na vida não se fazem planos nem se programa nada... deixam-se os dias sucederem-se e a vida acontecer! Porque quando planeamos e programamos muito esquecemo-nos, quase sempre, de viver a vida que está nesse momento a passar por nós!

E porque se encerra uma fase, amanhã ir-se-à abrir um novo capítulo na minha já recheada (e agitada) vida profissional! Um capítulo que espero que seja tão feliz como os que o antecederam: tão cheio de realizações, conquistas, aventuras, alegrias e pessoas como os precedentes. Um capítulo que será vivido com a mesma intensidade que todos os outros mas com a experiência acumulada do passado e a maturidade encontrada no meio dos dias dolentes de "dondoca"!

Quanto a nós, continuaremos a ver-nos por aí, porque o SLIH resiste a tudo e continuará, sempre!!!!!!