sexta-feira, outubro 19, 2012

Identidade




Para pensar: e se neste cartaz aparecesse uma suástica? O que diriamos? Quantas vozes gritariam bem alto (e bem!)? Mas o mesmo não acontece com o símbolo do comunismo. Porquê? Porque o politicamente correcto nos impede de associar tal símbolo à repressão, à ditadura e às perseguições políticas? Porque esta Europa em que vivemos se tornou de tal modo elástica nos seus valores que já não consegue distinguir tolerância de apatia? 

Confesso que não consigo entender. Se percebo a mensagem de tolerância religiosa - obviamente - já não compreendo a associação deste projecto a um regime responsável pela repressão de milhares de Europeus durante o século XX. Como diz este artigo, basta passar pelo leste Europeu para sentir (e ver) o que significou, na prática, a ditadura do proletariano e a instituição de regimes comunistas, à força, sob forte repressão social, cultural e política.

Uma Europa que esquece o seu passado - o que tem medo de o assumir - é uma Europa que não apenas perdeu a memória (!) mas que está à beira de perder a sua identidade e a sua matriz cultural e filosófica.

Uma Europa que se quer para todos (e bem) não pode ser uma Europa que perde a memória e, de caminho, a consciência. É grave? É. Por tudo aquilo que o símbolo em si representa e por tudo o que a sua presença significa da atrofia política (e  moral) a que chegámos.

quinta-feira, outubro 18, 2012

Veto

Merkel quer poder de veto sobre orçamentos nacionais mas rejeita emissão conjunta de dívida. Ora, cá pra mim, as coisas só fazem sentido sendo parte de um mesmo "pacote" - maior integração política. Caso contrário, será apenas uma bonita forma de ingerência.

7 anos

Não me lembro do dia em que fiz sete anos. Mas, à distância de 24 anos, imagino que tenha sido um dia feliz. Terei recebido os presentes que esperava e terei aproveitado um dia de sol (como é normal acontecer a 15 de Setembro, em Lisboa) ao lado de todos aqueles que eram importantes no meu pequeno mundo. E isso bastava para, do alto das certezas dos meus 7 anos, me sentir a menina mais feliz do mundo. Faz parte e é bom.

Aos 7 anos, numa vida feliz, tudo ainda são sonhos, esperanças e promessas. Aos 7 anos, numa vida feliz, ainda não descobrimos a angústia, a desilusão e o vazio. Ainda bem! Há muito tempo até começarem a nascer as primeiras borbulhas e as primeiras dúvidas (curiosamente, geralmente, vêm de mãos dadas). Muito tempo até nos exigirem escolhas tão determinantes como: o que é que queres fazer na vida (!). Mas mesmo o muito tempo (7 mais 7 são 14 e, portanto, o muito tempo é, afinal, o dobro daquele que então tínhamos vivido) é sempre pouco tempo.
A Catarina faz hoje 7 anos. Está a aprender a escrever e está a aprender a contar. Para ela a escola ainda é uma ilusão, cheia de magia: o sítio onde vai aprender todas as coisas e onde vai encontrar as respostas a todas as suas mil perguntas. Para ela a felicidade, felicidade plena, é ter-nos – a família mais próxima – com ela no dia dos anos. (Ao mesmo tempo, tão pouco para se pedir e tanto para se dar). Para ela basta a certeza de que nós a amamos para ser feliz. E dar-lhe essa certeza é (ainda) tão simples! E vê-la aos 7 anos é recordar que todos nós fizemos 7 anos um dia. Todos nós acreditámos que a escola era a ilusão. Todos nós achámos que a felicidade era uma coisa fácil de vivenciar. Todos nós sentimos, nas mais pequenas coisas, que éramos amados e isso bastava.
A Catarina faz hoje 7 anos e o que eu lhe posso dizer, tendo 4 vezes 7 mais alguma coisa, é para aproveitar bem a infância. Ela passa rápido – demasiado rápido – e depois nunca mais a vida será vivida de uma forma tão simples e, ao mesmo tempo, tão sábia. A Catarina que tenha agora todas as certezas, porque, de facto, elas são a base de uma infância feliz, mas que não as leve para a idade adulta – devem ficar arrumadas, juntamente com os brinquedos cansados de tantos anos de brincadeiras, como uma bela memória dos tempos que foram. A Catarina que tenha agora todos os sonhos e todas as esperanças e que não os deixe, nunca, ficarem curtos de mais para o seu tamanho. Esses sim devem ser levados para a adolescência e para a vida adulta, para que se mantenha sempre a mesma curiosidade de continuar a perguntar, de continuar a não saber tudo e de continuar a sentir o encantamento pela vida e pelo mundo. Porque nada no nosso mundo é plano (há a esfera para além do círculo) e em qualquer idade há espaço e há tempo para a descoberta, para o fascínio, para parar e olhar para o mundo com os olhos da criança curiosa que um dia fomos e deixarmo-nos apaixonar por ele. A Catarina que se sinta amada e que faça desse imenso património um seguro para o que virá no futuro: os amores que, infelizmente, não vão correr bem, os desgostos e as desilusões. Porque nunca mais será tão simples sentir e dar amor como é aos 7 anos.
Quantos sonhos cabem em 7 anos de vida? Todos! Parabéns Catarina.

terça-feira, outubro 16, 2012

Alternativa



Custa-me ver as notícias que dão conta do mal-estar na coligação governamental, não pelo que esse mal-estar significa (é muitas vezes da divergência que nasce a melhor solução) mas pelo que isso pode significar para o país, que não pode ir para eleições, nem pode perder a credibilidade externa garantida apenas pela estabilidade e pelo amplo consenso político. 

O orçamento é mau? É. O aumento de impostos merece todos aqueles nomes que lhe atribuíram? Merece. A inflexibilidade demonstrada pelo Ministro das Finanças é um mau sinal? É. 

Mas... é solução esticar a corda até a rebentar? Não. Precisamos de gente responsável que saiba que, neste momento, Portugal precisa de ter um Orçamento aprovado que satisfaça as exigências da Troika. Precisamos de um governo que se mostre capaz de liderar as reformas de que o país, desesperadamente, precisa. Precisamos de governantes com a fibra necessária para aguentarem a pressão das ruas, sem se desviarem daquele que deve ser o seu caminho: a reforma do Estado e a consolidação orçamental (sim, uma sem a outra de nada valeria). Precisamos de partidos responsáveis e à altura das suas obrigações (e aqui não falo apenas do PSD e do CDS, mas sobretudo do PS, que não se pode esquecer do que assinou em Maio passado e passar ao lado de tudo o que estamos a viver assobiando para o ar.) Precisamos de um governo que se mostre empenhado, determinado mas também flexível no que toca a encontrar melhores soluções.

Como observadora externa, parece-me a mim – como a muita gente – que o esforço do lado da despesa deveria ser maior. Mas será que isso seria menos duro do que fazer o ajustamento pelo lado da receita? Se calhar não. Porque as gorduras do Estado, quando se vão a ver de perto, são órgãos que, afinal, todos parecem considerar vitais. Não se pode falar de privatizações (TAP, CGD, RTP, etc). Não se pode falar em repensar os serviços públicos (desde logo saúde e educação que não podem continuar a ser tendencialmente gratuitas). Não se pode falar em reduzir a máquina da Administração Pública (com os necessários ajustamentos nos seus funcionários). Não se pode falar em reformar, verdadeiramente, a Segurança Social introduzindo verdadeira liberdade de escolha. 

E é por isso, por esse caminho ser difícil e se deparar com múltiplas dificuldades, que se opta pelo aumento brutal dos impostos. O CDS não gosta? Claro que não gosta! Não poderia gostar. Mas e agora? O que fazer? Só vejo um caminho: ser consequente e apresentar aquilo que o Ministro Gaspar pediu: propostas sérias e consequentes de cortes na despesa. É isso que eu espero dos deputados que ajudei a eleger. E à maioria, só peço que demonstre a flexibilidades, a maturidade e a seriedade que se exige aos nossos governantes e representantes. Sobretudo em tempos difíceis.

"No taxation without representation"

Que era mau já se sabia. Que é inalterável descobrimos ontem.

E isso é, na minha opinião, bem mais grave do que ser mau. Porque um Orçamento mau, melhora-se. Um Orçamento que é apresentado no Parlamento com o aviso de que esse mesmo Parlamento não lhe pode mexer, é péssimo. E é péssimo porque, de caminho, não apenas assume a sua própria inflexibilidade como faz tábua rasa do princípio da aprovação parlamentar do Orçamento do Estado.

Curioso é perceber que, na génese do liberalismo político, está, precisamente, o princípio que determina "no taxation without representation". Foi isto mesmo que, ao longo dos anos, se tornou a pedra de toque da aprovação dos Orçamentos pelos Parlamentos. Principalmente, porque a tributação tem sempre que passar pelo crivo Parlamentar - os representantes do povo. Assim o determina a separação de poderes e a responsabilização efectiva do poder executivo perante os Parlamentos.

Por isso mesmo, ao Parlamento não pode, nunca, ser imposta uma proposta fechada. Tem que ser apresentada uma proposta que, depois de analisada e discutida na especialidade, pode (e deve) sofrer alterações. Isto é a democracia a funcionar e isto mesmo é determinado pelos nossos princípios constitucionais.

Os deputados do PSD e do CDS ao exigirem isto, estão apenas a exigir o mínimo: uma discussão aberta e a possibilidade de melhorar uma proposta do Governo que terá, pelas regras constitucionais, que se transformar em Lei votada e aprovada pelo Parlamento. Nada mais normal e nada mais elementar em democracia.


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Nota: Na política (como na vida) a inflexibilidade não é qualidade que se deva cultivar. Até a natureza nos ensina que o que é rígido parte. O que é flexível adapta-se.

Esquecimento

Não é que sirva de consolo. Mas pelo menos que nunca nos esqueçamos disto. Porque o esquecimento é o primeiro passo para a reincidência. 

E convém recordar que a "cura" que nos é agora apresentada por alguns é apenas mais da mesma receita de ruína. E seria aplicada, exactamente, pelos menos que foram, ontem, os executores da delapidação do nosso património.

Não estou (nem pretendo) com isto defender um Orçamento do Estado que, na verdade, desconheço. Não pretendo, sequer, defender que o caminho traçado pelo Governo seja o único possível e que não seja necessária uma negociação - em sede parlamentar - do Orçamento. Pretendo apenas recordar o que nos trouxe aqui: a dívida pública que duplicou em 5 anos e que agora temos que pagar.

E disso, não há fuga possível. Porque as dívidas são, efectivamente, para serem pagas.


segunda-feira, outubro 15, 2012

How I wish you were here



So, so you think you can tell
Heaven from Hell,
Blue sky's from pain.
Can you tell a green field
From a cold steel rail?
A smile from a veil?
Do you think you can tell?

And did they get you to trade
Your heroes for ghosts?
Hot ashes for trees?
Hot air for a cool breeze?
Cold comfort for change?
And did you exchange
A walk on part in the war
For a lead role in a cage?

How I wish, how I wish you were here.
We're just two lost souls
Swimming in a fish bowl,
Year after year,
Running over the same old ground.
And how we found
The same old fears.
Wish you were here.

As leis


Como, decerto, em muitos outros países um dos problemas de Portugal são as leis. Lamento dizer isso, depois de ter passado 5 anos da minha vida a estudá-las, e mais outros tantos a usá-las, mas começo a ser forçada a concluir isso mesmo.

Vejamos. Em Portugal,  há vários tipos de leis:

- as que foram feitas para não serem cumpridas e a que todos fecham os olhos (lembro-me das leis de protecção ambiental, que só servem mesmo para impor restrições ao cidadão comum mas que, constantemente, “caem” quando se fala de grandes projectos – caso Freeport, por exemplo);

- as que foram feitas para proteger determinados interesses de classe, de grupo ou de agremiação (lembro-me da lei aplicável às equivalências);

- as que foram feitas sem qualquer razão aparente, sem justifição e sem sentido (bem, aqui haveria milhentos exemplos, e qualquer cidadão que tenha o mais pequeno contacto com o universo jurídico sabe bem do que falo);

- as que deveriam existir e pura e simplesmente não interessam a ninguém (por exemplo, um limite legal para o endividamento do Estado, sei lá!)

Pois bem, o problema é mesmo das leis. As que não se cumprem e que deveriam ser cumpridas. As que se cumprem e nunca deveriam ter sido aprovadas. As que se impõem, não tendo qualquer razão de ser. E as que deviam existir mas ninguém as quer fazer. E isto, meus caros, isto é o atraso português

O atraso dos cidadãos que são impedidos de seguirem com a sua vida, desenvolverem os seus projectos, fazerem os seus investimentos, porque há toda uma gincana de leis, regulamentos, regras e despachos que tem que ser ultrapassada ou contornada. No caminho, vários desistem. Outros vão fazer o que queriam para outras paragens, onde a legislação é mais amiga do investimento, do trabalho e da iniciativa.

O atraso dos projectos que são aprovados contra a lei, apenas porque há interesses injustificáveis que, afinal, o justificam. Construir um centro comercial em zona protegida? Pois claro! Construir uma barragem em local de património classificado? Siga! Porque não? Há milhões a correr, a economia a crescer e, dizem as más línguas, alguns bolsos a encherem-se.

O atraso do “amiguismo” e da “cunha” que muitas vezes tem consagração legal, porque a lei, que aprendi ser geral e abstracta, às vezes é feita a régua e esquadro para se aplicar apenas a um universo restrito e, a este, garantir o que, de outro modo, seria impossível, inaceitável e, em muitos casos, pouco ético.

O atraso de se criar um emaranhado tal de leis, regulamentos, despachos, ofícios e tudo o mais que o Estado deita cá para fora de forma veloz, e que estrangula tudo pelo caminho. Temos o magnífico exemplo da ASAE, com todas as suas regras absurdas que, afinal, e pasme-se (!), não foram importadas da Europa mas são invenção nacional. (Basta viver em Bruxelas para perceber que a ASAE entrava aqui e seria o fim de todo e qualquer restaurante ou bar belga).

O atraso de não se regular o que seria fundamental em qualquer estado de direito democrático, sejam os limites a que o poder político está sujeito (e estes não deveriam ter que ser impostos de Bruxelas), seja a responsabilização desse mesmo poder político perante a lei.

E é por isto que chegámos onde chegámos no atraso, na impunidade, na irresponsabilidade, na falta de vontade de fazer alguma coisa diferente. É por isso que esse mesmíssimo Estado, que tantas vezes foi burlado e saqueado, continua a permitir a impunidade de quem o fez e de quem o permitiu.

Parafraseando a famosa expressão de Marcelo Rebelo de Sousa, o nosso problema é tudo o que sendo ilegal se pode, afinal, fazer, e tudo o que não se pode fazer mas que deveria ser legal.

domingo, outubro 14, 2012

A liberdade não está em fazermos tudo o que queremos, mas em nos tornarmos quem somos























Acabei de ler o livro “When Nietzsche Wept”. Foi leitura que me acompanhou por vários dias. Li-o com calma, devagar. Acho que há muito tempo que não lia um livro com tanta calma. Não porque seja uma leitura difícil, mas porque procurei, para além de ler e compreender a história, absorver cada palavra, cada frase, cada mensagem. Deixar-me conquistar pela leitura ao invés de a querer domar, impondo-lhe o meu ritmo.   

Admito que tanto o título, como o autor possam parecer intimidantes à primeira vista. Mas não nos devemos assustar. A leitura deste romance (porque é disso que se trata – no sentido literário do termo e não no sentido romântico do mesmo) mais do que ser agradável – a escrita é simples e fluída – é desafiante. Desafiante dos nossos esquemas mentais, das nossas ideias feitas e dos nossos pré-conceitos – sobre a psicoterapia, sobre a filosofia, sobre Nietzsche, sobre a vida.

Esta é a estória do encontro ficcionado entre Josef Breuer (médico vulgarmente conhecido pelo caso de Anna O.) e o filósofo Friedrich Nietzsche, numa terapia conjunta em que tanto o "médico", como o "paciente" vão invertendo papéis, curando e sendo curados, naquela que é a experiência da “talking cure”. O livro constrói uma curiosa e intrincada tapeçaria entre o nascimento da psicoterapia e a filosofia de Nietzsche, desenvolvida através da conversa entre estes dois homens. Conversa essa que se foca sobre a vida, sobre a insatisfação, sobre a obsessão e sobre a angústia existencial de Breuer (mas também, e curiosamente, do seu “médico”, Nietzsche).

E é através da conversa destes dois homens que somos levados ao lado mais negro da natureza humana – a obsessão e o medo – mas também ao encontro de nós próprios, através do sábio conselho do filósofo: torna-te quem és. Ama o teu destino. Consuma (contrário de consome) a tua vida. Escolhe o teu caminho. Vive agora a vida que viverás toda a eternidade. Procura a liberdade, mas procura-a dentro de ti. Morre no tempo certo.

E, mais importante, a lição de que a nossa vida, toda ela, é uma escolha. E uma escolha que deve ser nossa, feita em liberdade. Apenas nós podemos escolher a vida que queremos viver, e consumá-la de forma plena. E a angústia nasce, precisamente, das escolhas erradas ou mesmo da ausência de escolha. Mas quantos são os caminhos e os atalhos que seguimos para evitar viver a vida que queremos viver, vivendo aquela que nos é imposta. “Have you lived your life or have you been lived by it?” Porque para que possamos viver a nossa vida, primeiro teremos que Ser, efectivamente. E para Ser é preciso ir ao fundo de nós e resgatar o Eu que o tempo, que o medo, que a vida foi escondendo e tornando incapaz de escolher ser livre.

E para esta escolha ser verdadeira, ser consciente e ser um verdadeiro “salto” não podemos ter medo do que possamos, eventualmente, perder. Breuer dá este salto de forma controlada e descobre – talvez para seu próprio espanto – que, afinal, a escolha que ele julgara ter-lhe sido imposta, era afinal a sua própria escolha e que nenhuma outra vida seria a Sua Vida. Nietzsche pelo contrário, dá o salto no vazio e encontra a sua própria solidão. Por isso chora. Porque aquilo que julgara ser a sua escolha, era afinal a cruel imposição da vida. E só ao partilhar com outro ser humano a sua angústia, só ao partilhar a extraordinária experiência humana que é amizade, percebe que afinal o seu caminho de solidão era, então, a sua verdadeira escolha (porque podia escolher outro).

E, o mais espantoso, é que, no final, a “cura” de ambos os homens deriva tão simplesmente da honestidade da partilha: “isolation exits only in isolation”. Da amizade. E é nesse momento, quando finalmente quebram a barreira da desconfiança e do medo, e se entregam um ao outro numa amizade honesta, que curam, por fim, a sua angústia existencial.

Porque, de facto, talvez tenhamos primeiro que enfrentar o nosso Eu, encontrá-lo na mais profunda solidão e vivenciá-la, aí, de forma plena, para que depois possamos, sendo nós próprios, compreender, aceitar e amar a escolha da partilha com os outros.

I meant only that, to fully relate to another, one must first relate to oneself. If we cannot embrace our own aloneness, we will simply use the others as a shield to isolation. Only when one can live like the eagle – with no audience whatsoever – can one turn to another in love; only then is one able to care about the enlargement of the other’s being.”

Always the hours



Vivemos numa sociedade consumista. E não falo do consumo de coisas. Falo do consumo do tempo. A nossa sociedade consome, vorazmente, o tempo. Todos corremos. Todos nos apressamos. Todos ansiamos por estar lá mais à frente, num futuro que nunca nenhum Homem pisou, mas que nós queremos consumir, já, agora: o e-mail que nunca mais recebemos. O prazo que não passa. As férias que nunca mais temos. O Natal que não chega. O livro que não acabamos. O filme do qual não conhecemos o final. Tudo é cortado, antecipado, resumido para mais depressa chegarmos à conclusão, ao final. Ao futuro. Como se algum dia pudéssemos ser rápidos o suficiente para chegar ao futuro(!).

E com isto não percebemos – pelo menos eu não percebia – que a única coisa que estamos verdadeiramente a antecipar é o limite da nossa própria finitude. Porque nós, por mais que nos custe, estamos limitados no tempo. E é por isso mesmo que ele é precioso. Cada instante de vida. Cada momento. Cada nano-segundo das nossas vidas consumido é menos um pedaço de vida que nos resta. E ao cavalgarmos os minutos, os dias, as semanas, os anos, é a vida que estamos a cavalgar. Consumindo-a (queimando-a) sem viver verdadeiramente. 

Cada vez mais penso em como o tempo voou dos meus 20 anos para agora. Em criança, pelo contrário, tudo durava mais tempo. E porquê? Porque tudo era vivido intensamente. Tudo era descoberta. Tudo era fascínio. Tudo era feito, ainda que instintivamente, com uma reverência absoluta pela vida que estávamos a descobrir. Em crianças éramos plenos de sonhos e de esperanças, mas não tínhamos consciência do tempo (ou tínhamos e lidávamos com ela como os sábios). Por isso não o queríamos apressar. Vivíamos. Andávamos devagar. Líamos devagar. Corríamos devagar. Sonhávamos devagar. Porque estávamos a aprender. Porque não sabíamos fazer mais depressa, nem sentíamos essa necessidade. Lembro-me de em criança querer ser “grande”, mas lembro-me de não ter pressa para lá chegar (porque tinha muito tempo. Tinha (achava eu) todo o tempo). Preferia brincar com as minhas bonecas ou ler os meus livros de aventuras numa tarde que demorava, de facto, todas as suas horas a passar.

Mas depois, chega a adolescência, e com ela a certeza de que o nosso tempo é finito. E começa a correria. Queremos ser adultos. Queremos ter 18 anos. Queremos ir para a faculdade. Queremos namorar. Queremos ser independentes. E corremos. Corremos muito depressa, com toda a força das hormonas. Nada nos pára. Nada nos sossega. Nada acalma essa ânsia imensa de tudo fazer, de tudo experimentar, de tudo consumir.

E, depois, essa correria nunca mais pára. Entranha-se de tal modo em nós que acreditamos que correr é o único caminho possível. Entramos no ritmo e continuamos a correr durante os 20, com a força da curiosidade. Durante os 30, com a ânsia do que não fizemos ainda. E por aí fora até o confronto com a morte se tornar cada vez mais iminente. Aí paramos e começamos, de novo, a viver lentamente. Tentando fazer esticar os dias às suas 24 horas, para que cada mês tenha 30 dias e cada ano 365. 

Mas será preciso esse choque brutal e tardio com a nossa finitude para que deixemos de consumir horas, que se somam em dias, que se transformam em anos? Não. Basta parar. Acalmar e sentir que a vida não é uma corrida. A vida não tem que ser apressada, mas aproveitada. A vida não tem que ser consumida, mas vivida.

Talvez eu seja, afinal, uma felizarda por me terem feito perceber isto aos 31 anos. Podia ter passado uma vida inteira sem perceber o prazer de deixar cada minuto ter os seus 60 segundos. Sejam esses 60 segundos de ansiedade, de tédio, de prazer ou de irritação. Sejam passados no cinema, no trânsito, no trabalho ou com aqueles que amamos. São 60 segundos da nossa vida e por isso são preciosos. São 60 segundos que nunca mais vamos viver e que se perdermos, nunca mais poderemos recuperar. Por isso temos que os vivenciar tão plenamente quanto a nossa limitada capacidade de sentir nos permitir.

E hoje, sabendo isto, arrependo-me por cada livro que consumi, vorazmente, procurando chegar rapidamente ao fim. Com isso, perdi o prazer de todas as horas em que ele me poderia, afinal, ter acompanhado. Talvez por isso, de cada vez que terminava um livro sentia tristeza. Sentia saudades. Saudades de todos aqueles momentos dolentes que podia ter passado com ele por companhia e que apressei, para chegar mais depressa ao final que era, afinal, nada mais do que a sua perda.

O mesmo por cada filme que vi ansiosa por chegar ao fim. Perdi todos os momentos em que podia ter apreciado a banda sonora. A forma como ele foi filmado. A interpretação dos actores. Todos os estímulos sensoriais e intelectuais que escapavam a quem procurava apenas saber o final da história. Porque a vida, afinal, é tudo o que acontece antes do final da história!

E, infelizmente, o mesmo para a minha vida. Tudo foi consumido com a ânsia de estar lá à frente. Com a ânsia de chegar. Com a ânsia de ganhar um futuro que, afinal, nunca foi mais do que ilusão. A correria sem destino, porque o único destino era impossível de alcançar: o futuro.

A metáfora recorrente na minha vida, a “de entrar no mar pelo meio” não poderia ser mais descritiva dessa ânsia de consumo de momentos. De queimar etapas da vida. Hoje sei que há que entrar no mar pela rebentação e aproveitar isso. Fazer o percurso, sem pressa. Olhar à volta e sorrir ao tempo. Porque o tempo, afinal, não é o nosso inimigo, porque não estamos numa corrida. O tempo é o nosso aliado, porque estamos num passeio.

sábado, outubro 13, 2012

O véu pintado



Tenho por hábito estudar/trabalhar ao som de bandas sonoras. Calhou hoje a escolhida ser a fabulosa banda sonora do filme “The Painted Veil”, de Alexandre Desplat. O que me levou a recordar o filme e o livro, de Somerset Maugham. Este é, possivelmente, o escritor homem que melhor captou a riqueza de uma personalidade feminina. As suas mulheres nada têm de planas, previsíveis ou secundárias. Antes pelo contrário. E n' “O Véu Pintado” é uma mulher a anti-heroína na história. 

Kitty Fane começa por ser a menina fútil e evolui para ser uma mulher leviana. Mas, a mesma Kitty Fane que assim começou, através de um caminho de solidão e de sofrimento, consegue redimir-se e regenerar-se. Confrontada com as suas culpas, com a solidão e com o desterro numa zona remota da China, Kitty renasce primeiro para os outros (as freiras e os orfãos do convento) e neles encontra-se, depois, a si própria. E, por fim, descobre o afecto, o perdão e o amor pelo homem que outrora desprezara. Um amor que nasce do respeito e da admiracão, mas também do sofrimento. E um amor que é muito mais do que uma paixão fugaz, alimentada pela chama passageira do desejo e da auto-satisfação. Um amor capaz de vencer a solidão, a descrença e até o medo, porque se basta a si próprio, pelo poder regenerador e criador que traz consigo. 

Esta é a poderosíssima estória que Somerset Maugham nos conta, e Kitty Fane acaba por ser a derradeira prova de que não há caminhos impossíveis e que o sofrimento tem um imenso poder regenerador, saibamos nós aproveitá-lo. Kitty Fane é, afinal, uma lição de esperança nas mulheres. Uma lição de esperança no ser humano.

Como escrevi certa vez, esta é uma estória de amor do avesso. Talvez a mais bela estória de amor do avesso já contada... mas, lá está, também ninguém nos disse que as estórias de amor tinham todas que ser escritas do direito. Somerset não o fez. E fez bem.