
Na passada quinta feira, na Livraria Almedida, falou-se de Blogs no feminino e se não fosse o trabalho, o estágio e os créditos para a Ordem eu bem que teria ido ouvir o que tinham a dizer três conhecidas bloggers sobre esta conversa dos blogs femininos!
Não tendo ido, gostaria, no entanto de deixar aqui a minha reflexão sobre o tema, mas não sem antes fazer uma ressalva: eu não sou nenhuma feminista que reivindica igualdade e queima sutiãs! Como qualquer mulher penso no papel que nos é reservado na sociedade e interesso-me pelos temas ditos femininos, mas não vivo, de modo algum, numa lógica de competição/inferiorização face aos homens. Sou mulher, nasci assim e é assim que hei-de estar na vida. Com a minha cabeça e o meu cabelo, louro, de preferência. Com as minhas ideias e com as minhas malas do mais original que consiga encontrar. Com a minha ambição e com as minhas unhas pintadas de várias cores. Com o meu profissionalismo e com a minha futilidade assumida!
Indo ao tema: porque será que o blog de uma mulher será sempre rotulado como 'um blog feminino' e os homens podem ter blogs sobre política, sobre desporto, sobre cultura, sobre a sociedade e o mundo, sobre tudo e mais alguma coisa que lhes passar pela cabeça, mas nunca terão um blog simplesmente rotulado como um 'blog de homem'?
Porque será que se entende que as mulheres quando escrevem, seja sobre política ou futebol, sobre cosméticos ou moda, sobre física quântica ou matemática pura, sobre terrorismo internacional ou o papel dos Estados Unidos no equilíbrio geopolítico do mundo, o fazem como mulheres, única e exclusivamente como mulheres?
Será que a inteligência tem sexo? Será que os interesses têm sexo? Dos blogs nem vale a pena perguntar porque já percebemos que sim... Sabemos que há blogs 'menina', mas, suprema ironia, não há blogs 'menino'(!)
Face a esta lógica ilógica, eu só posso compreender o rótulo 'blog feminino' como uma tentação masculina de subalternizar os blogues de mulheres, como que querendo dizer (sem nunca o dizerem): «elas até dão cor aos nossos dias, até têm jeito para pôr fotos e poemas e às vezes até escrevem umas coisas giras... mas são temas de 'gaja', tipo Sic Mulher versão melhorada (ou talvez não), mas não passa disso. Textos sérios e consistentes? Oh, como seria possível... ela é só uma mulher, uma rapariga! Escreve para lá (no seu BLOG de 'gaja') umas coisas com piada mas nada sério ou consequente.» E depois, nos blogues colectivos, há sempre a tentação de ter uma mulher (no máximo duas) para escrever os textos mais levezinhos. Se o blog for político, elas ficam com os textos sobre educação e cultura, se for de futebol falam sobre os jogadores e se for sobre outra coisa qualquer apenas dão o tom rosa shocking!
É, pois, contra este esquema mental que encontramos por todo o lado, incluindo nos nossos amigos (!) que eu me revolto. O meu blog, o meu SLIH não é um blog feminino. É o blog de uma mulher (ainda um bocado miúda) onde se escreve sobre tudo. Onde pode ser tema do dia a política, a sociedade, o cinema, a minha cor de verniz ou a influência dos raios gama nas margaridas. Não interessa... é um Blog genérico, em tons de rosa e com girassóis. Não é, de todo, apenas e só 'um blog de gaja'. É, simplesmente, o Blog da Beatriz!
2 comentários:
Cara,
pela qualidade da prosa, tenho pena que não tenhas aparecido; enriquecerias o debate, certamente.
Tenta ir ao próximo colóquio.
Saudações,
António
ps: uma pequena correcção à tua análise: tenho um amigo que já teve um blog chamado O Blog do Gajo. Machon, não?! :))
no Almedina, discorreu-se sobre a autoria de alguns blogues; ninguém lhes conhece o sexo.
Minha querida, este não é, "de todo, apenas e só um blog de gaja". E sabe porquê? Porque é o blog da Beatriz, que não é uma gaja.
Sei que soa a démodé, até haverá quem, do alto da sua soberba urbana, ultramoderna e esclarecida, encontrará no que lhe digo um insuportável pendor provinciano, mas acontece que isto de mulheres se tratarem a elas próprias, com orgulho prazenteiro, por gajas, faz-me sempre sentir imensa pena delas.
Claro que correm tempos de muita ligeireza, nos sentimentos e nas relações entre as pessoas, lamentavelmente também nos princípios e nos valores. Talvez por isso, também as palavras perderam peso e adquiriram significados mais conformes a esta leveza, ou fragilidade, dos conceitos, mas, mesmo assim, vejo sempre, com muita pena, pessoas a perderem o respeito por si próprias.
Ao que julgo saber, a designação de gaja aplicada a uma mulher começou por surgir na linguagem masculina, nas conversas entre homens, quando o objecto era um elemento do sexo feminino que, por uma qualquer razão, não lhes merecia nenhum respeito. Creio que, com o tempo, esta designação se tornou mais vulgarizada entre homens de grupos sociais menos educados, que passaram a designar por gajas as mulheres jovens, emancipadas e desinibidas,bem sucedidas no mercado de trabalho e independentes. Ao que parece,a "moda" pegou e os homens de hoje tratam genericamente por gajas as mulheres, sejam colegas de estudos, companheiras de trabalho, amigas de ocasião, ou simples desconhecidas. Curiosamente, algumas mulheres, que até aqui só usavam entre si o termo gaja em relação áquelas que desprezavam, devem ter gostado desta "moda" masculina e assumiram-na de tal forma que,não apenas a si mesmas se designam deste modo, como assumem comportamentos e atitudes com que parecem querer justificar a ofensiva designação. E assim, voltando aos blogues de gaja, temos alguns tristes exemplos de como algumas mulheres se vêem dignas representantes do seu sexo num mundo de homens (que o é,embora deste elas apenas demonstrem ter apreendido o acessório), quando utilizam linguagem que faria corar um camionista,ou abordam as questões da família, do sexo, do quotidiano actual, com a sensibilidade de um panzer de Rommel numa loja Vista Alegre, por atribuirem a esta brutalidade o toque de modernidade que a igualdade com o homem lhes exige. De tristes exemplos destes, está a blogosfera cheia.
Como muito bem diz, uma escrita no feminino não tem nada a ver com estereotipos como estes, ou os que refere
E, afinal,o que é isso de uma escrita no feminino? Olhe, para mim acontece sempre que uma mulher, que se sinta bem na sua pele, sem falsos pudores, sem complexos de ser quem é, escreve sobre o mundo e a vida, com coragem, em liberdade, e no respeito por valores e princípios que dignificam o ser humano.
Como em tudo na vida, tudo se resume a uma boa educação, bom senso e bom gosto.
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